A primeira indústria de semicondutores ferroelétricos na América Latina será instalada no Estado de São Paulo, no Parque Ecotecnológico de São Carlos, no interior paulista.

O anúncio foi feito última quinta-feira, dia 2 de outubro, no gabinete do reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo, pelos representantes das duas companhias responsáveis pelos investimentos no projeto, a norte-americana Symetrix Corporation e o Grupo Encalso-Damha, sediado em São Carlos.

Em janeiro foi anunciado que o empreendimento seria instalado no Brasil, mas na ocasião faltava definir qual região seria beneficiada com o negócio.

Os chips com memórias ferroelétricas são diferentes dos processadores de computador, que são ferromagnéticos. Uma importante aplicação está nos cartões bancários ou de crédito. As memórias ferroelétricas podem ser lidas e escritas cerca de 100 trilhões de vezes, enquanto a memória magnética de um cartão comum suporta apenas algumas dezenas de milhares de leituras.

Para que o produto seja desenvolvido no Brasil serão investidos até US$ 1 bilhão na nova fábrica. Segundo Ricardo Castelo Branco, diretor comercial da joint-venture entre os dois grupos empresariais, as construções devem iniciar no segundo semestre de 2009 e a operação no fim de 2011. A estimativa de Castelo Branco é que a fábrica fature aproximadamente R$ 100 milhões nos primeiros anos. No início, a idéia é suprir o mercado brasileiro, mas depois os dispositivos também devem ser exportados.

Uma boa notícia para pesquisadores e estudantes brasileiros é que a iniciativa contará com apoio científico e tecnológico do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, vinculado ao Instituto de Química da Unesp, em Araraquara.

O suporte de pesquisa e desenvolvimento (P&D), que inclui a transferência de conhecimento do processo de obtenção de memórias ferroelétricas e sua caracterização, será coordenado pelo físico José Arana Varela, professor do Instituto de Química e pró-reitor de Pesquisa da Unesp, e pelo químico Élson Longo, diretor-geral do CMDMC.

O CMDMC conta com cerca de 20 teses de doutorado e dissertações de mestrado concluídas na área de materiais ferroelétricos, especialmente filmes finos para memória. São mais de 60 artigos científicos publicados pelo grupo de pesquisa em revistas nacionais e internacionais.

A instalação da indústria se beneficiará de um decreto presidencial relacionado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Ciência e Tecnologia, que isenta de todos os impostos federais as empresas do setor de semicondutores, uma das quatro prioridades da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce) do governo federal.

Aplicações diversas

Estima-se que a fábrica gere pelo menos 700 empregos diretos na região de São Carlos, mão-de-obra altamente qualificada que deverá ser formada por mestres e doutores de áreas como química, física, engenharia, matemática e design de circuitos integrados.

Os chips de memória produzidos na fábrica serão usados, entre outras aplicações, nos chamados "cartões inteligentes" (smart cards), que têm aplicações que vão desde movimentações bancárias de entidades financeiras e bilhetes para o transporte público até documentos, telefonia celular e TV digital. Esses chips deverão ser usados ainda na produção de sensores de infravermelho voltados à indústria automobilística.

Symetrix

Fundada em 1986 na cidade de Colorado Springs, nos Estados Unidos, a Symetrix atua na produção de memórias não-voláteis com aplicações eletrônicas, científicas, automotivas, médicas e industriais. A empresa tem cerca de 200 patentes na área de microeletrônica e as licencia para fabricantes no Japão, Coréia, Europa e Estados Unidos.

Encalso-Damba

O Grupo Encalso-Damha é um conglomerado de empresas de construção pesada e empreendimentos imobiliários com mais de 40 anos de atuação em diversos segmentos, entre os quais engenharia civil, agronegócio, infra-estrutura urbana, shopping centers e concessões de rodovias.

Autor(es): FAPESP

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