Imagine um dispositivo tão ou mais sensível que a língua humana, capaz de reconhecer 1,3 mil variedades de vinho e obtido a partir da manipulação do átomo, a chamada nanotecnologia. Embora pareça coisa de ficção científica, esse sensor foi desenvolvido no Brasil, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Embrapa.

Se a língua eletrônica vai chegar ao mercado, porém, ainda é uma incógnita. Embora já esteja perto da fase industrial, o invento ainda não foi procurado e patenteado por nenhuma empresa, num retrato do dilema da nanotecnologia no país: o conhecimento existe, mas faltam canais para integrar universidades e empresas, além de recursos financeiros capazes de fomentar a pesquisa tecnológica.

"No mundo serão gastos este ano US$ 86 bilhões em pesquisas de nanotecnologia, um volume que deve chegar a US$ 100 bilhões no ano que vem. No Brasil, os investimentos públicos na área ficarão em cerca de R$ 40 milhões este ano", compara Ronaldo Marchese, da RJR Consultores.

Mesmo considerando a intenção do governo federal de, nos próximos quatro anos, aplicar US$ 100 milhões por ano no Programa Nacional de Nanotecnologia, a comparação com o cenário em países mais ricos parece desigual. "Nos Estados Unidos, só o Estado de Nova York investiu recentemente US$ 2,5 bilhões em quatro centros de nanotecnologia", observa Wanderley Marzano, diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

A diferença orçamentária é uma das razões pelas quais empresários, cientistas e membros do governo parecem convencidos de que é preciso definir rapidamente uma política de nanotecnologia que ajude o país a se posicionar bem no futuro.

Já estão em funcionamento no país quatro redes nacionais de pesquisa ligadas à nanotecnologia, o que representa um grupo de 500 cientistas em mais de 50 diferentes instituições. Isso, porém, é pouco difundido na indústria. "O Brasil é o 17º país do mundo em produção científica, uma posição considerável, mas a transferência deste conhecimento para o setor produtivo não acontece na mesma proporção", diz o professor José d'Albuquerque e Castro, diretor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para unir essas duas pontas, seis associações da indústria - dos setores de eletroeletrônicos, autopeças, plástico e têxtil - e seis instituições acadêmicas, a exemplo da USP, UFRJ, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Unicamp, decidiram unir-se na Nanotec.

A iniciativa prevê a realização de uma feira e de um congresso, em São Paulo, de 5 a 8 de julho de 2005, pela RJR Consultores. Os organizadores prevêem um público de 10 mil pessoas na exposição e cerca de 1,2 mil participantes no congresso. O foco, diz Marchese, da RJR, será nas aplicações práticas, exatamente para estimular a adesão das empresas.

"Várias universidades estão fazendo esforços para instalar agências de fomento. A nanotecnologia dá uma oportunidade excepcional porque mistura várias disciplinas científicas, além de combinar ciência e tecnologia", diz o professor Luiz Nunes de Oliveira, pró-reitor da USP. O número de aplicações na indústria é muito grande, diz Oliveira, e inclui desde lubrificantes e fármacos, até polímeros.

A nanotecnologia ganhou forma em 1985, quando dois cientistas da IBM provaram que era possível manipular o átomo e escreveram o nome da companhia, em dimensões microscópicas, numa placa de silício. O nanômetro é o bilionésimo do metro.

Hoje, já existem várias aplicações nanométricas na indústria, incluindo tecidos que não mancham, meias que não cheiram e vidros que dispensam limpeza. Neste último caso, os espaços entre as moléculas do vidro foram reduzidos a tamanhos menores que as da água, óleo etc. Isso faz com que, em contato com o vidro, essas substâncias escorram sem grudar. Com tantas aplicações, a expectativa é de que os negócios também dêem saltos sucessivos. Os produtos nanotecnológicos já movimentaram US$ 200 bilhões em 2002 e as previsões de mercado é de que chegarão a US$ 1 trilhão em 2020.

Autor(es): Valor Online

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