Em breve, quem não resistir ao chamado do alto-falante e comprar uma pamonha de Piracicaba, aquela que é “quentinha”, “caseira”, "o puro creme do milho", terá boas chances de levar para casa um produto industrializado. A primeira fábrica brasileira do quitute, na área rural do município, está pronta para fazer 6 mil pamonhas por dia – mais do que toda a produção artesanal estimada da cidade. Porém, antes de colocar as máquinas para funcionar, o Centro Rural de Tanquinho quer recursos da Prefeitura para construir um restaurante e uma loja no local, para também vender o doce.

“Nossa ideia é criar um polo turístico”, diz José Albertino Bendassolli, o “Bertinho”, diretor do Centro. “Não queremos produzir aqui para serem vendidas em outro lugar”. A fábrica tem 500 m2 e, segundo ele, custou aproximadamente R$ 1 milhão. O dinheiro veio da Secretaria de Agricultura do município, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e do próprio Centro Rural de Tanquinho – uma instituição privada sem fins lucrativos, que atua nas áreas de saúde e esportes. Agora, ele conversa com a Secretaria de Turismo local para tentar convencê-la a colocar dinheiro no restaurante, orçado em mais de R$ 400 mil.

Apesar de ter contado com recursos públicos, a futura fábrica de pamonhas de Piracicaba tenta, há cerca de sete anos, sair do papel. Anunciou que estava pronta outras vezes e Bendassolli não quer arriscar a data em que irá saborear o primeiro doce feito nela. Nesse mesmo período, , a maior pamonheira artesanal da região, equipou sua cozinha com algo próximo a uma fábrica – usando somente capital próprio. Comprou máquinas para separar o milho do sabugo, moer os grãos, misturar o creme e – essa ainda não chegou, mas está encomendada – descascar a espiga automaticamente.

A produção de Wanda começou há 17 anos na estrada entre Piracicaba e Charqueada – e só fez aumentar. Hoje, ela e o marido vendem mais de 4 mil pamonhas por semana, além de 1.800 litros de curau. Têm dez empregados e plantação própria de milho. Distribuem para quase todos os mercados da região e contam com vendedores que levam seus doces até São Paulo e cidades de Minas Gerais. Para ela, a nova fábrica (por coincidência, o negócio de Wanda se chama “Fábrica di Pamonha” – escrito assim mesmo, como em “Zezé di Camargo”) é uma incógnita.

“Difícil saber como vai ser”, diz Wanda. “Torço para que não vire um concorrente, para que traga mais gente para a região atrás de pamonhas”, afirma. “Porque aqui todo mundo já conhece as minhas pamonhas, se você perguntar na prefeitura eles indicam a minha, até se perguntar no Centro Rural de Tanquinho eles indicam aqui”, diz, com o forte erre arrastado da região. “Pode ser que a pamonha deles fique mais padronizada, mas aqui é negócio de família, a gente cuida para usar só milho colhido no dia, faz a pamonha de madrugada pra chegar quentinha no mercado de manhã”, completa.

“Bertinho” afirma que o sabor da pamonha industrializada será o mesmo. Ele ajudou a criar o processo – é pesquisador da ESALQ, a escola de agronomia da USP, com campus em Piracicaba – e agora trabalha para que seja patenteado. “A industrialização diminui o manuseio, mas não muda o gosto ou a textura”, diz. Pelo menos uma das marcas registradas da pamonha de Piracicaba não irá mudar: “ela continuará sendo embalada na palha do milho”, afirma.

“Olha aí, olha aí, freguesia”

Além da inovadora embalagem de palha e da receita sem leite (daí ser “o puro creme do milho verde”), o que deixou as pamonhas da cidade famosas foi o jingle que alardeava a chagada de “pamonhas fresquinhas, pamonhas de Piracicaba”. A fita foi gravada em 1969, época em que a cidade vivia o apogeu da produção, por um comerciante local chamado Dirceu Bigelli. Ele morreu num acidente de carro em 1990. Mas sua voz passou as divisas estaduais e chegou a Minas Gerais e Rio de Janeiro – e até hoje é a gravação predominante entre os vendedores de rua do quitute.

Piracicaba levou a fama, mas praticamente todos os doces vendidos como “pamonha de Piracicaba” na verdade são feitos por municípios vizinhos – como os de Wanda, cuja “fábrica” já fica nos limites de Charqueada. A produção da cidade, em si, é pequena. Mas sua fama foi suficiente para levar 120 mil pessoas para lá durante a última festa do milho, no início de abril. Com uma ponta de resignação, ela diz não se importar com a pequena injustiça geográfica. “A fita ficou famosa... Gravaram como Piracicaba, né? Mas vende a minha pamonha”, afirma. “Se continuar vendendo, acho que tudo bem”.

Autor(es): Portal IG

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