Minoritários veem conflito de interesses em operação da Petrobras

O mercado de capitais do Brasil está prestes a realizar a maior operação do mundo de oferta de ações de uma única empresa em bolsa de valores. A capitalização da Petrobras está marcada para o dia 30 deste mês. Mas antes de ela acontecer, há muitas dúvidas e preocupações com a forma como a operação vem sendo conduzida.

Para a Associação de Investidores do Mercado de Capitais (Amec), o resultado da operação pode não ser positivo para os acionistas minoritários da Petrobras. Segundo o presidente da Amec – entidade que representa hoje cerca de 80% dos acionistas minoritários do mercado de ações no país – Walter Mendes, há um conflito de interesses na operação, já que o governo tem interesse de vender o barril pelo maior preço possível, enquanto a Petrobras e seus acionistas querem comprar por um valor mais baixo.

A Petrobras diz que os termos do contrato entre a União e a Petrobras, inclusive quanto ao preço médio ponderado do barril de óleo equivalente, foi aprovado pelo comitê de minoritários. “A Petrobras está seguindo a legislação vigente e prestando todas as informações e esclarecimentos ao mercado sobre o processo”, diz a estatal.

A capitalização da Petrobras foi decidida pelo governo federal, principal acionista da companhia, para aumentar a capacidade de investimento da empresa. O principal uso dos novos recursos é em investimentos relacionados à exploração dos campos de petróleo do pré-sal. Com a operação, a empresa pode arrecadar até R$ 130 bilhões no mercado, que vão contribuir para fechar uma conta de R$ 220 bilhões de investimentos estimados nos próximos cinco anos.

Para investir na petrolífera, o governo federal cedeu à Petrobras cinco bilhões de barris de uma área do pré-sal, que serão vendidos, em média, a US$ 8,51 por barril. O preço foi definido pelo governo e anunciado no início deste mês.

A seguir, trechos da entrevista com o presidente da Associação, Walter Mendes:

G1 – O que justifica a posição da Amec sobre a capitalização da Petrobras?

Walter Mendes – Não somos contra a capitalização da Petrobras. Somos contra a forma como o governo federal conduziu o processo até aqui. A Petrobras está comprando uma reserva de cinco bilhões de barris de petróleo sem saber quanto vai gastar para extraí-lo, se vai realmente encontrar toda esta quantidade, assumindo um preço pelo barril hoje sem avaliação técnica. O interesse do vendedor, que é o governo federal, é vender pelo maior preço. O interesse do comprador, a Petrobras e todos os seus acionistas, é comprar pelo preço mais baixo. A decisão acabou sendo política, porque o presidente Lula não é especialista em petróleo. O valor de US$ 8,51 por barril não tem uma explicação técnica. O conflito de interesses é potencialmente enorme.

G1 – Com a capitalização, a Petrobras vai se tornar a segunda maior empresa de petróleo do mundo. Isso não é suficiente para atrair os investidores?

Walter Mendes – O presidente da Petrobras, em entrevistas na imprensa, admite que a taxa de retorno desta operação é equivalente ao custo médio de captação de recursos da Petrobras no mercado, sem a intervenção do governo [em conferência com analistas, Gabrielli admitiu que a taxa de retorno, de 8,83%, não é atraente mas, segundo ele, "não é destruidor do capital da companhia”]. Tem sentido investir numa empresa que o próprio presidente diz que poderá não ter lucros maiores com uma operação de alto risco como esta? Ninguém está questionando o pré-sal, os benefícios que ele pode trazer para o país. Mas a Petrobras é uma empresa de fins lucrativos, não de fomento à economia.

G1 – Qual o resultado esperado para os acionistas minoritários, que hoje representam 60% do capital da companhia?

Walter Mendes – O resultado aparentemente não é bom para os minoritários. O governo pode aumentar sua participação na empresa com exploração de reservas que só ele tem, que ele define quanto custa, sem precisar desembolsar dinheiro. Até aqui, só o governo ganha. Do outro lado, vai depender de quanto os minoritários conseguem acompanhar a operação ao preço que ela sair, porque eles têm que entrar com dinheiro vivo. A atuação política nesta capitalização abre um precedente ruim, perigoso. Cria uma imagem negativa para o nível de governança das empresas que participam do mercado de ações no Brasil.

G1 – O que devem fazer então os acionistas minoritários e novos investidores que estiverem interessados na operação?

Walter Mendes – A Amec não pode dar conselhos sobre investimentos. Podemos sim chamar atenção para os eventuais problemas, conflitos e riscos de operações e de atitudes de partes envolvidas que podem gerar riscos para os minoritários. Não podemos dizer se vale a pena ou não comprar ações da Petrobras hoje, até porque o preço da ação de uma empresa é formado por inúmeras razões.

Nossa recomendação a estes investidores é que analisem com muito cuidado, muita atenção, todos os detalhes da operação, que é complexa e ainda gera muitas dúvidas. O que é ruim para os minoritários, neste caso, é um aumento na interferência do governo na gestão de uma empresa deste tamanho. Não perder investindo nesta capitalização já será um bom resultado.

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